Em tempos onde o cliente deveria ser o foco do serviço prestado, fico me perguntando qual é a visão dos gestores de Enfermagem.
Essa reflexão foi despertada por alguns dissabores que tenho vivenciado em bibliotecas. Eu sempre adorei bibliotecas, quando era adolescente passava horas do dia escarafunchando cada estante. Era capaz até de ler a seção de arquivos de jornais velhos. Naquele tempo a gerência de uma biblioteca era muito mais árdua, pois não contava com os recursos da informática. Hoje essa gerência é bem mais simples, mas deve ser um pouco frustrante. Ninguém mais quer ir à biblioteca, suas mesas de estudo estão sempre vazias, seus livros sempre empoeirados. Da mesma forma que os avanços da informática trouxeram facilidades na gestão de bibliotecas, os mesmos avanços proporcionaram a existência de um mundo virtual de informações que as tornam quase obsoletas.
Enfim, ainda gosto de bibliotecas, no entanto sinto que sua gestão, muitas vezes, deixa de usufruir dos recursos da informática e dos avanços dos processos administrativos para atrair e reter seus clientes que, de fato, só vão lá porque gostam de bibliotecas, pois o acervo disponível na internet dá conta de resolver todas as nossas necessidades de informação.
O fato é que, mesmo gostando de bibliotecas, só consigo usufruir de algumas apresentando o meu cartão de usuária. Não que a biblioteca não conte com um sistema informatizado, nem que eu não tenha login e senha decorados que me permitam o acesso, mas a regra é que todo usuário apresente o seu cartão. Sem cartão não pode emprestar livro, pois o login e senha não podem ser utilizados para esse fim. Sem cartão não pode usar o guarda-volumes, pois não tem nenhuma estante sem chave para que se possa deixar sua pastinha para uma entrada rápida. E sem cartão a gente fica até sem graça de pedir para a equipe da biblioteca uma alternativa criativa que possa nos ajudar a achar a informação que precisamos nos livros; seus rostos parecem tão constrangidos e oprimidos pela autoridade das regras... Sua impotência em flexibilizá-las para atender a necessidade do cliente parece reforçar a verticalização das relações estabelecidas e torná-los ainda mais impotentes e menos donos do seu trabalho, pois toda pequena decisão deve ser autorizada pela sua chefia.
Confesso que sou extremamente desorganizada por não manter meu cartão sempre comigo, mas na minha bolsa brotam cartões de todos os tipos e sinto que as minhas prioridades ainda são o cartão do banco e do plano de saúde.
Quais serão as prioridades dos clientes do serviço de saúde?
Em hospitais, eu já vi clientes estabelecerem como prioridade a troca do seu leito. Por vários motivos os clientes desejam mudar de leito: o colchão não é confortável, a cama é alta demais, a posição perto da janela ou perto da porta parece ruim, enfim, quem está adoecido muitas vezes se incomoda com pequenas coisas.
Também é constrangedor ver a expressão desconfortável do técnico de enfermagem ao explicar que a mudança de leito vai demorar um pouquinho porque precisa da autorização do gestor de enfermagem.
A regra é um fim em si mesma quando não pode ter bolo de aniversário para o cliente que pode nunca mais completar anos, quando a esposa que esteve ao lado do esposo por mais de cinquenta anos não pode estar ao seu lado no momento da sua morte no meio da madrugada porque na enfermaria masculina não pode ter acompanhantes do sexo feminino durante a noite, quando a vacina não pode ser aplicada no bebê filho da mãe que trabalha todo o dia até anoitecer porque ainda faltam quatro dias para a data do reforço.
A administração nos ensina que o cliente é uma prioridade. Fidelizá-lo tem se tornado cada vez mais difícil com todas as opções disponíveis. O fato da Enfermagem oferecer alguns serviços essenciais não a torna isenta de ser substituída por pessoas mais criativas de outras categorias profissionais.
Será que o futuro da gerência de Enfermagem é ser exercida por profissionais que não são enfermeiros?
Ótimo texto. Parabéns!
ResponderExcluirConcordo plenamente. Atualmente deixamos o objetivo de lado simplesmente para cumprir regras.
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